segunda-feira, 8 de junho de 2026

“VELHOS SÃO OS TRAPOS”: QUANDO A IDADE SE TORNA PRECONCEITO NO ESCUTISMO

Há frases populares que resistem ao tempo porque encerram verdades simples e universais. "Velhos são os trapos" é uma delas. No entanto, apesar da sabedoria que encerra, continua a haver quem insista em medir o valor das pessoas pela sua idade e não pelo que são capazes de fazer, pensar e construir.
Infelizmente, esta realidade também se faz sentir no movimento escutista. Um movimento que educa para o respeito, a inclusão e a valorização de cada pessoa não consegue, por vezes, escapar a um preconceito subtil, mas real: a ideia de que os dirigentes mais velhos devem dar lugar apenas por serem mais velhos.
É evidente que o escutismo precisa de renovação. Precisa de jovens dirigentes, de novas abordagens, de novas ferramentas e de novas sensibilidades. No entanto, quando a renovação se transforma numa corrida à substituição e a idade passa a ser vista como um problema em si mesma, deixamos de falar de renovação e começamos a falar de discriminação.
Há dirigentes que dedicaram décadas das suas vidas ao Movimento. Viram gerações de crianças e jovens crescer, enfrentaram desafios, organizaram atividades memoráveis, resolveram crises, cometeram erros e aprenderam com eles. Acumularam experiência, conhecimento e uma compreensão profunda da missão educativa do escutismo. No entanto, muitas vezes, são vistos como um obstáculo ao futuro.
O mais curioso é que muitos destes dirigentes continuam a ser uma fonte inesgotável de energia e criatividade. Continuam a propor ideias, a encontrar soluções, a conceber projetos e a oferecer-se para trabalhar. Mantêm o cérebro ativo, o entusiasmo intacto e a mesma vontade de servir que os levou a assumir o compromisso escutista há alguns anos. Quantas vezes são os próprios dirigentes os maiores impulsionadores das chamadas "novas ideias"? Quantas vezes a experiência permite transformar uma simples proposta num verdadeiro sucesso?
Há uma tendência perigosa para se confundir juventude com competência e idade com obsolescência. Como se a capacidade de inovar tivesse um prazo de validade. Como se a paixão pelo escutismo desaparecesse com os cabelos brancos. Como se a experiência deixasse de ter valor precisamente quando mais pode contribuir para orientar, aconselhar e inspirar.
O escutismo não precisa de escolher entre juventude e experiência. Precisa das duas. Precisa da irreverência dos mais novos e da sabedoria dos mais experientes. Precisa da ousadia de quem chega e da memória de quem ajudou a construir o caminho. Um movimento que menospreze a sua experiência corre o risco de repetir erros antigos, perder referências e empobrecer a sua identidade.
Talvez tenha chegado o momento de questionarmos algumas atitudes e discursos que, sob a bandeira da renovação, escondem formas de idadismo que não aceitaríamos noutras circunstâncias. Se rejeitamos os preconceitos baseados na origem, no género ou na condição social, por que razão havemos de aceitar os preconceitos baseados na idade?
O futuro do escutismo não se constrói afastando quem ainda tem muito para dar. Constrói-se criando pontes entre gerações, valorizando talentos e reconhecendo que o serviço não tem idade. Enquanto houver dirigentes dispostos a aprender, a servir, a acompanhar os jovens e a contribuir para a Missão do Movimento Escutista, haverá sempre lugar para eles.
Porque a verdadeira juventude não está na idade que consta do cartão de cidadão. Está na capacidade de continuar a acreditar, a sonhar e a agir. E isso não se mede em anos.
No Escutismo, como na vida, velhos são os trapos. As pessoas valem pelo seu compromisso, entrega e pelo bem que fazem aos outros.



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