QUANDO O ESCUTISMO SE APRENDE EM ADULTO
Nem todos os adultos que assumem responsabilidades educativas no escutismo tiveram uma experiência prévia como escuteiros. Isso não constitui, por si só, uma desvantagem insuperável. No entanto, aqueles que nunca viveram o escutismo na primeira pessoa necessitam de uma formação particularmente cuidada, que vá além da simples aprendizagem de técnicas de campo ou da organização de atividades.
Na minha opinião, baseada em mais de três décadas de atividade como formador de adultos no escutismo, a primeira necessidade formativa é compreender a essência do método escutista. Um adulto pode saber organizar jogos, gerir grupos ou até ter experiência pedagógica, mas precisa de compreender como o escutismo promove o desenvolvimento integral dos jovens através da educação pela ação, da vida em pequenos grupos, da progressão pessoal e do contacto com a natureza. Sem esta compreensão, corre-se o risco de transformar o escutismo numa mera atividade de ocupação dos tempos livres.
Outra área fundamental é a formação em liderança educativa. Ser dirigente não significa apenas coordenar ou dar instruções. Significa acompanhar os jovens em diferentes fases do seu crescimento, criar oportunidades de aprendizagem, incentivar a autonomia e servir de exemplo através da coerência entre o que se diz e o que se faz. Quem não teve uma experiência escutista na juventude pode necessitar de mais tempo para interiorizar esta forma particular de liderança.
Também considero essencial uma formação sólida em termos de segurança, proteção e bem-estar dos jovens. As atuais responsabilidades exigem conhecimentos de gestão de risco, de prevenção de situações de abuso, de prestação de primeiros socorros e de criação de ambientes educativos seguros e inclusivos. Estas competências são indispensáveis a qualquer dirigente, independentemente do seu percurso anterior.
Por outro lado, um adulto sem experiência escutista beneficia muito do contacto próximo com dirigentes experientes. A observação, a partilha de experiências e a reflexão conjunta ajudam a compreender aspetos da cultura escutista que não são facilmente transmitidos apenas através de cursos de formação ou manuais. O acompanhamento por "tutores" (selecionados nos agrupamentos pela sua experiência e não pela sua disponibilidade, que muitas vezes é artificial) pode ser tão importante quanto a formação formal.
Por fim, penso que estes adultos devem adotar uma atitude de aprendizagem contínua. A vantagem de quem nunca foi escuteiro é chegar sem ideias pré-concebidas, podendo questionar práticas, propor melhorias e partilhar experiências de outros contextos. No entanto, esta contribuição só será verdadeiramente positiva se for acompanhada de humildade para aprender e de respeito pelos princípios e finalidades do escutismo.
Em suma, os adultos que nunca foram escuteiros não precisam apenas de aprender o que se faz no escutismo, mas sobretudo de compreender o motivo pelo qual se faz. A formação deve ajudá-los a adquirir conhecimentos e competências, mas sobretudo uma visão educativa coerente com o propósito de formar cidadãos mais responsáveis, autónomos e comprometidos com a comunidade.


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