O ESCUTISMO É UM JOGO, NÃO UMA CIÊNCIA
"Sim, o Escutismo é um jogo. Mas por vezes pergunto-me se, com todos os nossos panfletos, regras, dissertações na revista Scouter, conferências e cursos de formação para Comissários e outros dirigentes, não estaremos a torná-lo num jogo demasiado sério. É verdade que todas estas coisas são necessárias e úteis para ajudar os adultos a compreender o método e a alcançar resultados.
Quando se começa a encarar o Escutismo como algo pesado e
complicado, perde-se todo o seu espírito e toda a sua alegria; os rapazes
acabam por sentir esse desânimo, e o Escutismo, tendo perdido o seu espírito,
deixa de ser um jogo para eles.
O Escutismo, como já disse, não é uma ciência a ser estudada
solenemente, nem um conjunto de doutrinas e textos. Também não é um código
militar para incutir disciplina rígida nos rapazes e reprimir a sua
individualidade e iniciativa. Não — é um jogo alegre ao ar livre, onde jovens
adultos e rapazes podem aventurar-se juntos como irmãos mais velhos e mais
novos, adquirindo saúde e felicidade, habilidades práticas e espírito de ajuda.
Muitos jovens afastam-se da ideia de serem chefes escuteiros
por recearem ter de ser perfeitos e capazes de ensinar todos os detalhes das
provas de especialidade; quando, na verdade, o seu papel é entusiasmar os
rapazes e procurar especialistas que os instruam. O conjunto de regras serve
apenas como orientação para momentos de dificuldade; os cursos de formação
existem apenas para mostrar as melhores formas de aplicar o método e obter
resultados.
Assim, gostaria de incentivar os dirigentes escuteiros a que
o objetivo mais importante seja revitalizar o espírito alegre do Escutismo
através de acampamentos e caminhadas — não como atividades ocasionais entre
sessões mais formais, mas como a forma habitual de formação dos rapazes — e,
incidentalmente, também deles próprios."
Baden-Powell – Janeiro de 1931
O texto de Baden-Powell continua surpreendentemente atual. Num tempo em que quase tudo tende a ser estruturado, avaliado e formalizado, a sua defesa do Escutismo como um "jogo" é um lembrete importante de que a aprendizagem mais profunda muitas vezes ocorre de forma natural, espontânea e até divertida.
Transformar o Escutismo — ou qualquer atividade educativa —
num sistema excessivamente rígido pode acabar por afastar precisamente aquilo
que o torna valioso: o entusiasmo, a curiosidade e a liberdade de experimentar.
Ao concentrarem-se demasiado em regras, manuais e resultados mensuráveis, os
adultos correm o risco de sufocar o espírito de aventura que motiva os jovens.
Por outro lado, Baden-Powell não rejeita totalmente a
estrutura. Ele reconhece a utilidade das regras e da formação, mas coloca-as no
seu devido lugar: como ferramentas de apoio e não como o centro da experiência.
Esta distinção é essencial. A estrutura deve servir o jogo, nunca o substituir.
Na minha opinião, esta visão aplica-se muito para além do Escutismo.
No ensino, no desporto e até em ambiente profissional, os melhores resultados
surgem quando existe um equilíbrio entre orientação e liberdade. A motivação
intrínseca, que nasce do prazer e do interesse, é sempre mais poderosa do que a
imposição externa.
Em suma, o texto convida-nos a repensar a forma como
orientamos os outros: menos controlo e mais inspiração; menos formalismo e mais
experiência. Porque, no fundo, aprender — tal como o Escutismo — deve continuar
a ser, em grande parte, um jogo.


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