A ORAÇÃO DO ESCUTA NÃO CONVIVE BEM COM A HIPOCRISIA
Há textos que nos consolam.
E há textos que nos acusam.
A Oração do Escuta pertence claramente ao segundo grupo.
Recitamo-la de pé, nas cerimónias que procuramos que sejam bem organizadas, de lenço ao pescoço e com a voz segura. Mas a pergunta que raramente fazemos é simples e brutal: vivemos aquilo que rezamos?
Porque esta oração não deixa espaço para encenação.
Quando diz “ensinai-me a ser generoso”, não está a falar de disponibilidade ocasional ou de serviço condicionado à agenda pessoal. Fala de uma generosidade que incomoda, que desinstala, que obriga a escolhas difíceis. Generosidade que não cabe em discursos — só em gestos concretos.
“A servir-Vos como Vós o mereceis” é talvez uma das frases mais exigentes. Serve-se Cristo servindo os outros. E isso não se faz com autorreferência, jogos de poder ou preocupações excessivas com cargos, estatutos e reconhecimentos internos. Quem serve para aparecer já deixou de servir.
A oração continua e torna-se ainda mais radical: “a dar-me sem medida”. Aqui morre a lógica do mínimo indispensável. Aqui cai por terra a cultura do “já fiz a minha parte”. No Escutismo — como na vida — dar-se sem medida não é heroísmo romântico; é coerência entre aquilo que se promete e aquilo que se vive.
Quando rezamos “a combater sem cuidar das feridas”, somos confrontados com uma verdade desconfortável: nem todo o cansaço é injustiça, nem toda a crítica é perseguição. Às vezes, as feridas existem porque o combate é real. E quem escolhe servir não pode transformar cada dificuldade numa prova de martírio.
Talvez a frase mais reveladora seja “a gastar-me sem esperar outra recompensa”. Aqui a hipocrisia fica sem abrigo. Porque esperar recompensas — mesmo disfarçadas de reconhecimento, influência ou “voz ativa” — é humano. Mas rezar esta frase e viver à espera de retorno é mentir em oração.
No fim, tudo se resume a isto: “saber que faço a Vossa vontade santa”. Não a vontade do grupo. Não a lógica da maioria. Não a conveniência institucional. Mas a vontade de Deus, que raramente coincide com conforto, unanimidade ou silêncio cúmplice.
A Oração do Escuta não é um ornamento espiritual do movimento.
É um espelho.
E um espelho honesto nunca é simpático.
Talvez o maior ato de fidelidade a esta oração não seja repeti-la em voz alta, mas rezá-la em silêncio… e deixá-la julgar a nossa prática diária.
Porque, no Escutismo, a maior incoerência não é falhar.
É rezar bonito e viver pequeno.


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