terça-feira, 2 de setembro de 2025

ARTIGO DE OPINIÃO
“QUEM MUITO BURRO TOCA, ALGUM HÁ-DE FICAR PARA TRÁS” – A NECESSIDADE DE SEPARAR FUNÇÕES

O Corpo Nacional de Escutas (CNE) é uma organização que se baseia em valores sólidos, como o serviço, a dedicação e a formação integral dos jovens. Para cumprir a sua missão, é essencial que cada dirigente possa dar o melhor de si, com clareza de objetivos e eficácia no trabalho. No entanto, uma realidade recorrente merece reflexão: deverão os dirigentes das estruturas para além dos Agrupamentos — sejam elas nacionais, regionais ou de núcleo — estar, em simultâneo, integrados nos próprios Agrupamentos? A resposta, a meu ver, é negativa.


O conhecido ditado popular "quem muito burro toca, algum há-de ficar para trás" encaixa perfeitamente nesta discussão. Um dirigente que acumula responsabilidades na sua estrutura de agrupamento e, ao mesmo tempo, desempenha funções numa estrutura regional ou nacional, corre o risco de não conseguir dedicar a energia e o tempo necessários a nenhuma dessas áreas de forma plena. O resultado? Trabalho incompleto, projetos adiados ou menos eficazes, e um desgaste pessoal que compromete o próprio espírito de serviço escutista.

As exigências distintas de cada nível

Um Agrupamento é a base do escutismo. É no contacto direto com os jovens que o escutismo cumpre a sua missão educativa, e isso exige presença, acompanhamento e dedicação ao detalhe. Já as estruturas regionais e nacionais, por sua vez, têm um papel estratégico e de coordenação, que exige planeamento, análise e uma visão global.

Acumular funções nos dois níveis equivale a tentar abraçar tarefas com naturezas e ritmos muito diferentes, tornando-se quase impossível fazer ambas com a qualidade necessária. Por muito competente que seja o dirigente, a dispersão de esforços e tempo acaba por comprometer o impacto do seu trabalho.

Conflito de interesses e imparcialidade

Outro problema evidente é o risco de conflitos de interesse. Um dirigente que está simultaneamente numa estrutura superior e num Agrupamento poderá, consciente ou inconscientemente, privilegiar as necessidades da sua realidade local em detrimento das restantes. Esta falta de imparcialidade pode prejudicar a equidade no apoio dado aos diferentes agrupamentos e enfraquecer a coesão da própria estrutura regional ou nacional.

A importância da dedicação exclusiva

Separar as funções não significa excluir ou “dividir” os dirigentes, mas sim permitir que cada um possa desempenhar o seu papel com total disponibilidade e eficácia. Um dirigente na Junta Regional, por exemplo, poderia investir mais tempo na criação de programas inovadores, na formação de dirigentes e no acompanhamento global dos agrupamentos, se não estivesse constantemente dividido entre as necessidades da sua própria unidade e as exigências regionais.

O mesmo se aplica aos dirigentes dos Agrupamentos, cuja missão é tão intensa e exigente que exige atenção total para o acompanhamento das secções, planeamento de atividades e apoio ao crescimento dos jovens.

Experiência vs. Acumulação

Alguns argumentam que manter dirigentes das estruturas superiores ligados aos agrupamentos é uma forma de garantir que não perdem contacto com a realidade de base. No entanto, a experiência não precisa de ser acumulada em simultâneo, mas sim ao longo do percurso de cada dirigente. Nada impede que um dirigente de uma estrutura nacional já tenha anos de experiência no trabalho de base e traga essa visão para as suas novas responsabilidades.

Conclusão

Para que a Associação possa continuar a cumprir a sua missão com qualidade e eficácia, é necessário reconhecer que ninguém pode estar em todo o lado ao mesmo tempo, nem pode desempenhar todas as funções sem comprometer algo no caminho. Tal como diz o ditado popular, “quem muito burro toca, algum há-de ficar para trás” — e, neste caso, o que fica para trás é muitas vezes a qualidade do trabalho, a serenidade das equipas e, por fim, a própria missão educativa.

Separar as funções entre Agrupamentos e estruturas superiores não é um luxo, mas sim uma condição para que cada dirigente possa dar o melhor de si, com clareza, foco e eficácia.

[publicado a 19 de julho]

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