SER IGREJA NO ESCUTISMO: FIRMES NA FÉ, ABERTOS AO OUTRO
Num tempo em que as identidades parecem endurecer e os discursos se tornam facilmente divisivos, falar de fraternidade pode parecer ingénuo. No entanto, talvez seja hoje mais urgente do que nunca recuperar a sua força concreta. No escutismo, e em particular numa associação assumidamente católica, esta questão deixa de ser abstrata e torna-se prática: como acolher crianças e jovens cristãos que não são católicos?
Antes de mais, é necessário afirmar algo com serenidade:
acolher não significa diluir. Uma associação católica não deve ocultar a sua
identidade nem relativizar aquilo que a fundamenta. A fé não é um adereço
cultural, mas sim o eixo estruturante do projeto educativo. A dimensão
espiritual no escutismo não é opcional nem decorativa. Educar para a
transcendência, para a relação com Deus e para a vivência comunitária da fé faz
parte da proposta.
No entanto, identidade não é sinónimo de exclusão.
O próprio Evangelho mostra-nos que a pertença a Cristo não
se constrói com base em fronteiras defensivas, mas sim através de encontros
transformadores. A Lei do Escuta lembra-nos que o escuteiro é amigo e irmão de
todos os outros escuteiros. A palavra "irmão" não se esgota numa
afinidade institucional; aponta para uma fraternidade mais profunda, enraizada
no reconhecimento de uma dignidade comum a todos os seres humanos.
Entre cristãos, esta base comum é ainda mais evidente. O
Batismo, ainda que celebrado segundo tradições diferentes, é sinal de pertença
a Cristo. Embora não partilhemos as mesmas expressões litúrgicas nem a mesma
compreensão sacramental plena, partilhamos o Evangelho, a centralidade de
Jesus, o apelo à caridade e à construção da paz. Num mundo ferido por guerras
culturais e religiosas, a convivência fraterna entre cristãos constitui por si
só um testemunho.
A questão decisiva não é se podemos acolher, mas sim como o
fazemos.
Se acolher significar ocultar símbolos, evitar celebrações
ou transformar a fé numa vaga "espiritualidade neutra", então
estaríamos a trair o próprio carisma. Porém, se acolher significar explicar,
testemunhar, convidar sem impor, criar espaços de respeito e de escuta, então
estaremos a ser profundamente coerentes com o Evangelho.
Uma criança ou um jovem cristão não católico pode participar
numa missa do agrupamento com respeito, mesmo que não comungue. Pode rezar
connosco, mesmo que lhe sejam menos familiares algumas das palavras. Pode
aprender o valor da tradição católica sem se sentir forçado a abdicar da sua.
E, ao mesmo tempo, pode ajudar-nos a purificar a nossa fé de rotinas acríticas,
obrigando-nos a explicar o que fazemos e o motivo.
A verdadeira maturidade identitária manifesta-se na
capacidade de dialogar sem medo. Quem sabe a que pertence não teme o encontro.
Pelo contrário, cresce com ele.
Educar para a fraternidade não é uma concessão à
modernidade, mas sim uma exigência evangélica. "Bem-aventurados os
pacificadores" não é um conselho opcional. Num contexto social cada vez
mais plural, o escutismo pode ser um laboratório de convivência cristã, firme
na identidade e aberto de coração.
Talvez o maior risco não seja acolher em demasia, mas sim
acolher mal: sem clareza, sem intencionalidade e sem formação dos dirigentes.
Por conseguinte, mais do que discutir limites teóricos, é necessário investir
na formação para o diálogo ecuménico, na explicitação do projeto educativo e na
coerência entre o que se proclama e o que se vive.
No fundo, a questão não é saber se há lugar para cristãos
não católicos no escutismo católico. A questão é se estamos preparados para
viver a nossa identidade com tal autenticidade que a acolhida se torne uma
consequência natural desta.
Porque a fraternidade não nasce da uniformidade. Nasce da convicção de que o outro não ameaça a nossa fé, podendo, pelo contrário, ajudar-nos a aprofundá-la.

























