quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

SER IGREJA NO ESCUTISMO: FIRMES NA FÉ, ABERTOS AO OUTRO

Num tempo em que as identidades parecem endurecer e os discursos se tornam facilmente divisivos, falar de fraternidade pode parecer ingénuo. No entanto, talvez seja hoje mais urgente do que nunca recuperar a sua força concreta. No escutismo, e em particular numa associação assumidamente católica, esta questão deixa de ser abstrata e torna-se prática: como acolher crianças e jovens cristãos que não são católicos?

Antes de mais, é necessário afirmar algo com serenidade: acolher não significa diluir. Uma associação católica não deve ocultar a sua identidade nem relativizar aquilo que a fundamenta. A fé não é um adereço cultural, mas sim o eixo estruturante do projeto educativo. A dimensão espiritual no escutismo não é opcional nem decorativa. Educar para a transcendência, para a relação com Deus e para a vivência comunitária da fé faz parte da proposta.

No entanto, identidade não é sinónimo de exclusão.

O próprio Evangelho mostra-nos que a pertença a Cristo não se constrói com base em fronteiras defensivas, mas sim através de encontros transformadores. A Lei do Escuta lembra-nos que o escuteiro é amigo e irmão de todos os outros escuteiros. A palavra "irmão" não se esgota numa afinidade institucional; aponta para uma fraternidade mais profunda, enraizada no reconhecimento de uma dignidade comum a todos os seres humanos.

Entre cristãos, esta base comum é ainda mais evidente. O Batismo, ainda que celebrado segundo tradições diferentes, é sinal de pertença a Cristo. Embora não partilhemos as mesmas expressões litúrgicas nem a mesma compreensão sacramental plena, partilhamos o Evangelho, a centralidade de Jesus, o apelo à caridade e à construção da paz. Num mundo ferido por guerras culturais e religiosas, a convivência fraterna entre cristãos constitui por si só um testemunho.

A questão decisiva não é se podemos acolher, mas sim como o fazemos.

Se acolher significar ocultar símbolos, evitar celebrações ou transformar a fé numa vaga "espiritualidade neutra", então estaríamos a trair o próprio carisma. Porém, se acolher significar explicar, testemunhar, convidar sem impor, criar espaços de respeito e de escuta, então estaremos a ser profundamente coerentes com o Evangelho.

Uma criança ou um jovem cristão não católico pode participar numa missa do agrupamento com respeito, mesmo que não comungue. Pode rezar connosco, mesmo que lhe sejam menos familiares algumas das palavras. Pode aprender o valor da tradição católica sem se sentir forçado a abdicar da sua. E, ao mesmo tempo, pode ajudar-nos a purificar a nossa fé de rotinas acríticas, obrigando-nos a explicar o que fazemos e o motivo.

A verdadeira maturidade identitária manifesta-se na capacidade de dialogar sem medo. Quem sabe a que pertence não teme o encontro. Pelo contrário, cresce com ele.

Educar para a fraternidade não é uma concessão à modernidade, mas sim uma exigência evangélica. "Bem-aventurados os pacificadores" não é um conselho opcional. Num contexto social cada vez mais plural, o escutismo pode ser um laboratório de convivência cristã, firme na identidade e aberto de coração.

Talvez o maior risco não seja acolher em demasia, mas sim acolher mal: sem clareza, sem intencionalidade e sem formação dos dirigentes. Por conseguinte, mais do que discutir limites teóricos, é necessário investir na formação para o diálogo ecuménico, na explicitação do projeto educativo e na coerência entre o que se proclama e o que se vive.

No fundo, a questão não é saber se há lugar para cristãos não católicos no escutismo católico. A questão é se estamos preparados para viver a nossa identidade com tal autenticidade que a acolhida se torne uma consequência natural desta.

Porque a fraternidade não nasce da uniformidade. Nasce da convicção de que o outro não ameaça a nossa fé, podendo, pelo contrário, ajudar-nos a aprofundá-la. 



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