terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

ACOLHER É MUITO MAIS DO QUE RECEBER

Fala-se frequentemente de crescimento, de números, de inscrições e de vitalidade associativa. No entanto, raramente se aborda com a profundidade necessária o que realmente sustenta qualquer comunidade: a forma como acolhe quem chega.

Todos nós recordamos a primeira vez que entramos num novo espaço: uma escola, um local de trabalho, um grupo. Lembramo-nos menos do discurso formal e mais do olhar que nos dirigiram, da naturalidade (ou frieza) com que nos integraram, do sentimento de pertença — ou da sua ausência. No escutismo não é diferente. Acolher não se esgota num processo formal de preparação para a promessa, na receção de um lenço, no preenchimento de uma ficha de inscrição ou na apresentação de um calendário de atividades. Acolher é reconhecer alguém como pessoa única e fazer com que se sinta parte integrante da comunidade.

Defendo que o acolhimento não deve ser encarado como um momento protocolar no início do ano, mas sim como uma atitude permanente. É cómodo concentrar esforços no início do ano, quando tudo começa e o entusiasmo está no auge. No entanto, um agrupamento escutista verdadeiramente vivo deve estar preparado para receber novos elementos a qualquer momento. Isso exige flexibilidade, organização e, sobretudo, maturidade comunitária. Um agrupamento fechado em si mesmo envelhece; um agrupamento que se abre renova-se.

Mais ainda, acolher verdadeiramente implica sair da zona de conforto. É fácil integrar quem já nos é próximo: o irmão de um elemento, o filho de um dirigente ou o amigo de longa data. O verdadeiro desafio está em ir ao encontro de quem não nos conhece, de quem vem de outros contextos sociais, culturais ou geográficos. É aí que se revela a coerência dos nossos valores. Se acreditamos na fraternidade, na inclusão e na educação integral, devemos demonstrá-lo com gestos concretos.

Acolher é também um processo. Não se esgota no primeiro dia. Requer acompanhamento, escuta ativa, atenção aos silêncios e às dificuldades. Implica explicar tradições sem as impor, integrar sem descaracterizar e ensinar sem desvalorizar o que o outro já traz. Acima de tudo, exige partilhar experiências reais. É através da ação — do jogo, do serviço, da vida em campo — que o espírito escutista é verdadeiramente compreendido.

Há ainda um aspeto que considero fundamental: cada novo elemento representa uma oportunidade de renovação. A chegada de alguém novo obriga-nos a explicar melhor o que fazemos, a questionar rotinas e a redefinir prioridades. Um olhar fresco pode revelar incoerências que já não víamos ou sugerir caminhos inovadores. Quem acolhe também aprende.

Num tempo marcado pelo individualismo e pela fragmentação social, a capacidade de acolher é um testemunho silencioso, mas poderoso. Uma comunidade que sabe receber demonstra segurança na sua identidade e confiança no seu projeto educativo.

Por conseguinte, mais do que uma estratégia de crescimento, o acolhimento deve ser entendido como um compromisso ético. Não se trata apenas de aumentar o número de membros, mas de alargar horizontes humanos. No fim, não é apenas quem chega que se transforma, mas sim todo o grupo, que cresce, amadurece e se fortalece.



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