ACOLHER É MUITO MAIS DO QUE RECEBER
Fala-se frequentemente de crescimento, de números, de inscrições e de vitalidade associativa. No entanto, raramente se aborda com a profundidade necessária o que realmente sustenta qualquer comunidade: a forma como acolhe quem chega.
Todos nós recordamos a primeira vez que entramos num novo
espaço: uma escola, um local de trabalho, um grupo. Lembramo-nos menos do
discurso formal e mais do olhar que nos dirigiram, da naturalidade (ou frieza)
com que nos integraram, do sentimento de pertença — ou da sua ausência. No
escutismo não é diferente. Acolher não se esgota num processo formal de
preparação para a promessa, na receção de um lenço, no preenchimento de uma
ficha de inscrição ou na apresentação de um calendário de atividades. Acolher é
reconhecer alguém como pessoa única e fazer com que se sinta parte integrante
da comunidade.
Defendo que o acolhimento não deve ser encarado como um
momento protocolar no início do ano, mas sim como uma atitude permanente. É
cómodo concentrar esforços no início do ano, quando tudo começa e o entusiasmo
está no auge. No entanto, um agrupamento escutista verdadeiramente vivo deve
estar preparado para receber novos elementos a qualquer momento. Isso exige
flexibilidade, organização e, sobretudo, maturidade comunitária. Um agrupamento
fechado em si mesmo envelhece; um agrupamento que se abre renova-se.
Mais ainda, acolher verdadeiramente implica sair da zona de
conforto. É fácil integrar quem já nos é próximo: o irmão de um elemento, o
filho de um dirigente ou o amigo de longa data. O verdadeiro desafio está em ir
ao encontro de quem não nos conhece, de quem vem de outros contextos sociais,
culturais ou geográficos. É aí que se revela a coerência dos nossos valores. Se
acreditamos na fraternidade, na inclusão e na educação integral, devemos
demonstrá-lo com gestos concretos.
Acolher é também um processo. Não se esgota no primeiro dia.
Requer acompanhamento, escuta ativa, atenção aos silêncios e às dificuldades.
Implica explicar tradições sem as impor, integrar sem descaracterizar e ensinar
sem desvalorizar o que o outro já traz. Acima de tudo, exige partilhar
experiências reais. É através da ação — do jogo, do serviço, da vida em campo —
que o espírito escutista é verdadeiramente compreendido.
Há ainda um aspeto que considero fundamental: cada novo
elemento representa uma oportunidade de renovação. A chegada de alguém novo
obriga-nos a explicar melhor o que fazemos, a questionar rotinas e a redefinir
prioridades. Um olhar fresco pode revelar incoerências que já não víamos ou
sugerir caminhos inovadores. Quem acolhe também aprende.
Num tempo marcado pelo individualismo e pela fragmentação
social, a capacidade de acolher é um testemunho silencioso, mas poderoso. Uma
comunidade que sabe receber demonstra segurança na sua identidade e confiança
no seu projeto educativo.
Por conseguinte, mais do que uma estratégia de crescimento,
o acolhimento deve ser entendido como um compromisso ético. Não se trata apenas
de aumentar o número de membros, mas de alargar horizontes humanos. No fim, não
é apenas quem chega que se transforma, mas sim todo o grupo, que cresce,
amadurece e se fortalece.


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