SINAIS DOS TEMPOS? TALVEZ. MAS É PENA.
Hoje tive de consultar o meu currículo escutista para encontrar uma data que pudesse ajudar um amigo. Ao percorrer aquelas páginas — atividades, Jamborees das Beiras (sete, todos!), projetos, ações de formação, responsabilidades assumidas — dei por mim a pensar que é impressionante a quantidade de experiência acumulada ao longo dos anos.
São muitas horas de serviço. Muitas decisões tomadas. Muito
sacrifício familiar e profissional. Muitas equipas lideradas. Muitos jovens
foram acompanhados no seu crescimento. Muitos problemas foram resolvidos com
poucos recursos e muita criatividade.
No entanto, ficou a sensação agridoce de que tudo isso hoje
em dia vale pouco. Ou, pelo menos, é pouco reconhecido.
Houve um tempo em que a experiência era quase sempre
respeitada. O percurso falava por si. A dedicação era vista como um valor. O
voluntariado estruturado, exigente e formativo era reconhecido como uma escola
de liderança e de carácter. Hoje em dia, parece que só contam os certificados
formais, os títulos sonantes e os cargos!
Talvez sejam sinais dos tempos.
Vivemos numa era de imediatismo, de resultados rápidos e
visíveis, de validação instantânea. A experiência construída ao longo de anos
de serviço consistente não se enquadra facilmente numa lógica de consumo
rápido. O trabalho silencioso, realizado nos bastidores, raramente é aplaudido.
No entanto, quem conhece o escutismo por dentro sabe que não
se trata apenas de atividades ao ar livre ou de encontros semanais. Trata-se de
formar pessoas. De assumir responsabilidades desde cedo. De aprender a liderar,
a organizar, a ouvir, a decidir sob pressão. Trata-se de cometer erros e
corrigi-los. De servir "sem esperar recompensa".
Isso não perde valor só porque deixou de ser reconhecido com
a mesma evidência.
Talvez o que tenha mudado não seja o valor da experiência em
si, mas a forma como a sociedade a mede. Hoje, é talvez necessário traduzir
melhor o que durante anos foi vivido com naturalidade: gestão de equipas,
coordenação de projetos, formação contínua, capacidade de adaptação e liderança
ética.
Ainda assim, fica a sensação de que algo se perdeu. E é
lamentável.
Porque, quando uma sociedade deixa de reconhecer o valor do
serviço, da experiência acumulada e da dedicação consistente, empobrece um
pouco, mesmo sem se aperceber disso.
Sinais dos tempos? Talvez.
Mas não deixa de ser lamentável.


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