sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

SINAIS DOS TEMPOS? TALVEZ. MAS É PENA.

Hoje tive de consultar o meu currículo escutista para encontrar uma data que pudesse ajudar um amigo. Ao percorrer aquelas páginas — atividades, Jamborees das Beiras (sete, todos!), projetos, ações de formação, responsabilidades assumidas — dei por mim a pensar que é impressionante a quantidade de experiência acumulada ao longo dos anos.

São muitas horas de serviço. Muitas decisões tomadas. Muito sacrifício familiar e profissional. Muitas equipas lideradas. Muitos jovens foram acompanhados no seu crescimento. Muitos problemas foram resolvidos com poucos recursos e muita criatividade.

No entanto, ficou a sensação agridoce de que tudo isso hoje em dia vale pouco. Ou, pelo menos, é pouco reconhecido.

Houve um tempo em que a experiência era quase sempre respeitada. O percurso falava por si. A dedicação era vista como um valor. O voluntariado estruturado, exigente e formativo era reconhecido como uma escola de liderança e de carácter. Hoje em dia, parece que só contam os certificados formais, os títulos sonantes e os cargos!

Talvez sejam sinais dos tempos.

Vivemos numa era de imediatismo, de resultados rápidos e visíveis, de validação instantânea. A experiência construída ao longo de anos de serviço consistente não se enquadra facilmente numa lógica de consumo rápido. O trabalho silencioso, realizado nos bastidores, raramente é aplaudido.

No entanto, quem conhece o escutismo por dentro sabe que não se trata apenas de atividades ao ar livre ou de encontros semanais. Trata-se de formar pessoas. De assumir responsabilidades desde cedo. De aprender a liderar, a organizar, a ouvir, a decidir sob pressão. Trata-se de cometer erros e corrigi-los. De servir "sem esperar recompensa".

Isso não perde valor só porque deixou de ser reconhecido com a mesma evidência.

Talvez o que tenha mudado não seja o valor da experiência em si, mas a forma como a sociedade a mede. Hoje, é talvez necessário traduzir melhor o que durante anos foi vivido com naturalidade: gestão de equipas, coordenação de projetos, formação contínua, capacidade de adaptação e liderança ética.

Ainda assim, fica a sensação de que algo se perdeu. E é lamentável.

Porque, quando uma sociedade deixa de reconhecer o valor do serviço, da experiência acumulada e da dedicação consistente, empobrece um pouco, mesmo sem se aperceber disso.

Sinais dos tempos? Talvez.

Mas não deixa de ser lamentável.



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