sábado, 9 de agosto de 2025

ESCUTAR, CONFIAR, LIBERTAR

Durante seis dias, entre o pó dos trilhos e do terreno do acampamento, a água fria dos tanques improvisados e o calor de agosto, vivi, com a minha equipa de dirigentes, uma experiência que podia parecer só mais um acampamento de Verão, só mais um acampamento no calendário. Mas não foi.
Levámos mochilas, tendas, material de cozinha, de construção, planos de atividades, protetor solar, bonés… e também levámos o olhar com que vemos e acompanhamos cada escuteiro. Levámos a forma como orientamos. E essa, nem sempre é leve.
Partimos com a vontade sincera de dar liberdade aos jovens. E conseguimos, muitas vezes. Houve gargalhadas verdadeiras, mergulhos inesperados, corridas sob a relva, sobre a areia das margens do rio Mondego, danças improvisadas junto à fogueira, momentos de oração em que até os mais tímidos se juntaram com voz e coração. Houve até quem se deitasse na relva a olhar o céu, sem ninguém a dizer o que fazer.
Mas percebemos que, por hábito ou medo, também limitámos essa liberdade: quando aplicámos as regras dos jogos, que oração da manhã ou oração da noite fazer, o que vestir como farda de campo, e ás meninas no banho no rio, fato de banho ou biquíni? Mesmo sem querer, voltámos a impor a “ordem” de sempre. Isso custou perceber. Porque falamos tanto de autonomia… mas custa abrir mão do controlo.
No escutismo, como na vida, proteger é importante — mas libertar também. Às vezes confundimos cuidado com controlo. Respeitar é estar presente, não dominar; é ouvir, mesmo sem concordar; é dar espaço, mesmo com receio do que possa acontecer.
Os jovens que acompanhamos não são apenas “lobitos”, “exploradores” ou “pioneiros” — são pessoas com vontade própria, sonhos e opiniões. Mais do que atividades bem planeadas, precisam de poder escolher, sentir que contam, que podem tentar e até errar.
Durante o acampamento vimos isso: quem preferiu ficar a observar em vez de participar, quem disse “não quero” a uma tarefa, quem escolheu o seu próprio ritmo. Vimos conversas profundas à sombra de uma árvore, amizades nascerem num jogo com bolas de padel e latas de salsichas, reconciliações depois de conflitos.
A dignidade de cada um já lá está — só precisa ser reconhecida. Está no orgulho de montar a própria tenda, na escolha de que caneca usar para o leite, da panela ou tacho, para fazer o almoço ou o jantar no entusiasmo de inventar uma nova receita de patrulha. Basta termos olhos atentos. E menos medo.
O maior tesouro que trouxemos deste acampamento não foi diversão nem repouso, mas perguntas que nos empurram para sermos melhores dirigentes:
– Estou a inspirar autonomia ou apenas a guiar?
– Que hábitos meus ainda prendem quem lidero?
– Vejo este jovem como protagonista ou apenas como seguidor? As respostas não são fáceis. Mas são o caminho para sermos melhores educadores.
O acampamento acabou, mas ficou a certeza: educar é muito mais do que ensinar técnicas — é escutar, confiar e libertar. Todos têm o direito de viver a vida inteira, não apenas o que sobra depois das regras.
Que na próxima vez possamos pousar, suavemente, o fardo invisível do controlo, como quem larga um casaco pesado ao fim do inverno. Que caminhemos leves pelos trilhos, de pés descalços na relva, coração aberto ao inesperado. E que vivamos o acampamento como se fosse um rio — deixando-nos levar pela corrente inteira, sem ficar presos à margem.
Inspirado num texto que li…

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