ESCUTAR, CONFIAR, LIBERTAR
Partimos com a vontade sincera de dar liberdade aos jovens. E conseguimos, muitas vezes. Houve gargalhadas verdadeiras, mergulhos inesperados, corridas sob a relva, sobre a areia das margens do rio Mondego, danças improvisadas junto à fogueira, momentos de oração em que até os mais tímidos se juntaram com voz e coração. Houve até quem se deitasse na relva a olhar o céu, sem ninguém a dizer o que fazer.
Mas percebemos que, por hábito ou medo, também limitámos essa liberdade: quando aplicámos as regras dos jogos, que oração da manhã ou oração da noite fazer, o que vestir como farda de campo, e ás meninas no banho no rio, fato de banho ou biquíni? Mesmo sem querer, voltámos a impor a “ordem” de sempre. Isso custou perceber. Porque falamos tanto de autonomia… mas custa abrir mão do controlo.
No escutismo, como na vida, proteger é importante — mas libertar também. Às vezes confundimos cuidado com controlo. Respeitar é estar presente, não dominar; é ouvir, mesmo sem concordar; é dar espaço, mesmo com receio do que possa acontecer.
Os jovens que acompanhamos não são apenas “lobitos”, “exploradores” ou “pioneiros” — são pessoas com vontade própria, sonhos e opiniões. Mais do que atividades bem planeadas, precisam de poder escolher, sentir que contam, que podem tentar e até errar.
Durante o acampamento vimos isso: quem preferiu ficar a observar em vez de participar, quem disse “não quero” a uma tarefa, quem escolheu o seu próprio ritmo. Vimos conversas profundas à sombra de uma árvore, amizades nascerem num jogo com bolas de padel e latas de salsichas, reconciliações depois de conflitos.
A dignidade de cada um já lá está — só precisa ser reconhecida. Está no orgulho de montar a própria tenda, na escolha de que caneca usar para o leite, da panela ou tacho, para fazer o almoço ou o jantar no entusiasmo de inventar uma nova receita de patrulha. Basta termos olhos atentos. E menos medo.
O maior tesouro que trouxemos deste acampamento não foi diversão nem repouso, mas perguntas que nos empurram para sermos melhores dirigentes:
– Estou a inspirar autonomia ou apenas a guiar?
– Que hábitos meus ainda prendem quem lidero?
– Vejo este jovem como protagonista ou apenas como seguidor? As respostas não são fáceis. Mas são o caminho para sermos melhores educadores.
O acampamento acabou, mas ficou a certeza: educar é muito mais do que ensinar técnicas — é escutar, confiar e libertar. Todos têm o direito de viver a vida inteira, não apenas o que sobra depois das regras.
Que na próxima vez possamos pousar, suavemente, o fardo invisível do controlo, como quem larga um casaco pesado ao fim do inverno. Que caminhemos leves pelos trilhos, de pés descalços na relva, coração aberto ao inesperado. E que vivamos o acampamento como se fosse um rio — deixando-nos levar pela corrente inteira, sem ficar presos à margem.
Inspirado num texto que li…

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