sexta-feira, 22 de agosto de 2025

A ILUSÃO DA ESTAGNAÇÃO NO ESCUTISMO E O FALSO REFÚGIO NO COVID-19

Passar meia década sem sinais claros de evolução positiva nos agrupamentos ou até no escutismo em geral é motivo de preocupação profunda. Mais grave ainda é constatar a redução do efetivo — tanto de jovens como de dirigentes adultos — e atribuir quase exclusivamente ao COVID-19 a responsabilidade dessa perda.

É inegável que a pandemia trouxe dificuldades: reuniões suspensas, atividades canceladas, acampamentos adiados e a consequente quebra da rotina escutista. Muitos jovens afastaram-se e vários adultos sentiram-se desmotivados ou sobrecarregados. Contudo, cinco anos depois, continuar a “lançar as culpas” ao COVID-19 não passa de uma desculpa que esconde problemas mais estruturais.

A verdade é que os agrupamentos e estruturas que melhor se adaptaram, reinventando dinâmicas e mantendo a chama acesa, conseguiram recuperar parte significativa da sua vitalidade. Já os contextos que permaneceram presos a modelos pouco flexíveis, ou que não encontraram novas formas de cativar e integrar, continuam a sentir os efeitos da estagnação.

No escutismo, sabemos que não basta resistir: é preciso evoluir, inovar e manter a proposta educativa viva e atual. Se o número de escuteiros decresce, isso deve ser visto não apenas como uma consequência de circunstâncias externas, mas como um alerta sobre a necessidade de repensar a forma como acolhemos, motivamos e educamos.

Perguntas que o escutismo precisa encarar:

  • Estamos a criar experiências escutistas suficientemente significativas e entusiasmantes para as novas gerações?
  • Que mecanismos de acolhimento e acompanhamento temos para os jovens e para as suas famílias?
  • Os nossos dirigentes adultos sentem-se apoiados, formados e valorizados, ou sobrecarregados e desmotivados?
  • O escutismo local e regional ou mesmo o nacional, está a investir em inovação pedagógica ou a repetir fórmulas que já não atraem?

Caminhos possíveis para revitalizar o movimento:

  1. Reforçar a proposta educativa – mostrando aos jovens que o escutismo é diferente de qualquer outra experiência de vida, porque combina aventura, espiritualidade, serviço e fraternidade.
  2. Investir na formação e motivação de dirigentes adultos – um agrupamento com chefes comprometidos, inspirados e bem preparados torna-se naturalmente mais atrativo.
  3. Aproximar o escutismo das famílias e comunidades – para que sintam que o movimento é um espaço seguro, formativo e transformador.
  4. Transformar a crise em oportunidade – usar as dificuldades como catalisador para repensar métodos, comunicação e prioridades, mantendo-se fiel ao espírito de Baden-Powell: “Deixar o mundo um pouco melhor do que o encontramos.”

O verdadeiro desafio não é justificar o decréscimo de membros com o impacto da pandemia, mas sim assumir que o escutismo só será relevante se continuar a ser uma resposta viva, inspiradora e exigente para os jovens e para os adultos de hoje.

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