ESCUTISMO: ONDE O RISCO SAUDÁVEL FORMA JOVENS MAIS FORTES, AUTÓNOMOS E RESILIENTES
O recente debate público em torno da chamada parentalidade helicóptero — ilustrado por casos como o de uma mãe que levou a tribunal o colégio do filho após este partir a perna num simples jogo da apanhada — mostra até que ponto a sociedade se tornou avessa ao risco. Como refere a psicóloga clínica Laura Sanches, este excesso de proteção transmite às crianças uma mensagem perigosa: a de que não são capazes de enfrentar desafios por si próprias e de que necessitam constantemente da intervenção dos adultos. O resultado, segundo a especialista, são crianças mais inseguras, menos maduras e com menor capacidade de lidar com o mundo real.
Ora, é precisamente aqui que o Escutismo surge como um poderoso contraponto — e, diria, como um antídoto essencial.
O Movimento Escutista, desde a sua origem, reconhece a importância educativa do risco moderado, da experimentação e da autonomia progressiva. Nos escuteiros, as crianças e jovens aprendem a testar limites de forma segura, acompanhadas, mas nunca sufocadas. Montam uma tenda pela primeira vez, fazem fogo com regras claras, aprendem técnicas de orientação, enfrentam trilhos difíceis, participam em jogos desafiantes onde nem sempre ganham — mas onde sempre crescem.
Ao contrário do que muitos pais receiam, é exatamente esta vivência que constrói resiliência. Como sublinha Laura Sanches, o papel do adulto é estar presente para ajudar a lidar com o medo, não evitá-lo a qualquer custo. É assim que se forma confiança. E é isso que acontece diariamente nos escuteiros: didirgentes adultos atentos, mas não intrusivos, que orientam sem impedir que cada jovem se descubra, tropece, levante e supere.
A decisão dos tribunais, incluindo do Supremo, ao considerar que um jogo de apanhada não é uma atividade perigosa, reforça a ideia de que crescer implica inevitavelmente enfrentar riscos normais e saudáveis. O próprio acórdão destaca a importância do contacto com o mundo real, longe da bolha digital que tantas vezes isolou e fragilizou a geração mais nova. E, como lembra a psicóloga, a ausência de experiências de alerta pode explicar o aumento das crises de ansiedade e pânico entre adolescentes.
No Escutismo, estas “brincadeiras” não são apenas entretenimento — são ferramentas pedagógicas. Desenvolvem empatia, porque exigem trabalho em equipa; fortalecem competências sociais, porque obrigam a cooperar; estimulam coragem, porque convidam a sair da zona de conforto. Tudo aquilo que, segundo os especialistas, falta cada vez mais aos jovens.
Pertencer ao Movimento Escutista não significa expor as crianças a perigos — significa prepará-las para a vida real. Significa formar jovens mais autónomos, mais confiantes, mais empáticos e emocionalmente mais fortes. Num mundo que insiste em proteger em excesso, o Escutismo lembra-nos que é no equilíbrio entre segurança e desafio que se constrói o caráter.
E talvez por isso, mais do que nunca, seja tão importante vestir o lenço e deixar que a aventura eduque.

























