terça-feira, 25 de novembro de 2025

ENTRE TRILHOS E VALORES

A premissa — “não existem jovens na freguesia ou paróquia, o efetivo é reduzido, mas mesmo assim realizam-se atividades onde o que persiste é o ‘gozo pessoal dos adultos” — merece uma reflexão séria, sobretudo porque coloca em causa o verdadeiro propósito do escutismo e o papel dos adultos dentro dele.

A falta de jovens numa comunidade não invalida, por si só, a existência de um agrupamento escutista. Pelo contrário: muitos grupos pequenos conseguem desenvolver trabalho notável, precisamente porque o número reduzido permite maior acompanhamento, maior proximidade e um crescimento mais personalizado. O problema começa quando a escassez de jovens deixa de ser encarada como um desafio educativo e passa a ser usada como cortina para justificar práticas cuja motivação central já não são os jovens, mas sim os adultos.

A expressão “gozo pessoal dos adultos” revela uma inversão preocupante do propósito escutista. Os adultos — chefes, dirigentes ou colaboradores — existem no movimento para servir, orientar e educar. Quando as atividades passam a responder prioritariamente às vontades, entusiasmos ou interesses dos adultos, perde-se a essência do movimento. Os jovens deixam de ser a razão de existir do grupo e tornam-se, involuntariamente, figurantes de um cenário construído para satisfação alheia.

Um agrupamento reduzido exige mais responsabilidade, não menos. Obriga a refletir sobre que atividades fazem sentido, como motivar os poucos jovens existentes, como atrair novos membros, como envolver a comunidade. Persistir em atividades apenas para manter rotinas internas ou alimentar dinâmicas adultas é mascarar a realidade e falhar na missão educativa. É insistir numa estrutura que já não está a servir os jovens, mas sim quem deveria estar ao serviço deles.

O argumento da falta de jovens não pode ser um escudo para manter práticas desajustadas. Se o movimento deixa de colocar os jovens no centro, então a questão não é o número — é a finalidade. E sempre que a finalidade se desvia da educação, do serviço e do crescimento juvenil, é urgente parar, repensar e recentrar.

O escutismo só faz sentido quando é feito para os jovens e com os jovens. Quando passa a ser feito apesar dos jovens, algo está profundamente errado.



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