quinta-feira, 9 de abril de 2026

SERVIR NO ANONIMATO, SER ESQUECIDO NO TEMPO

Há reconhecimentos que, quando chegam, já perderam parte do seu sentido, não porque deixem de ser merecidos, mas porque demoraram mais tempo do que o razoável. No seio da nossa associação escutista, esta realidade revela-se com particular nitidez quando pensamos nos dirigentes que, ao longo de décadas, sustentaram silenciosamente a vida dos seus agrupamentos. Conheço alguns desses dirigentes e muitos mais que, entretanto, já entraram no pórtico do Eterno Acampamento sem terem recebido o devido reconhecimento em vida.


Falamos de homens e mulheres que nunca procuraram o protagonismo. Escolheram, de forma consciente, o caminho discreto da humildade e da simplicidade, não como refúgio, mas como expressão de uma profunda compreensão do verdadeiro sentido do serviço. Dirigentes que se colocaram sempre atrás para que outros pudessem estar à frente, que abdicaram do reconhecimento pessoal para que o crescimento dos jovens fosse a única luz visível.

Foram — e continuam a ser — os alicerces de comunidades inteiras. Com uma dedicação rara e uma competência tantas vezes subestimada, construíram gerações, moldaram valores e deixaram marcas indeléveis em inúmeras vidas. Tornaram-se, sem o desejarem, exemplos vivos de entrega, coerência e compromisso.

No entanto, é precisamente aqui que a reflexão deixa de poder ser apenas contemplativa para se tornar necessariamente crítica. Como é possível que estruturas associativas, que assentam quase exclusivamente no voluntariado, revelem tamanha incapacidade de reconhecer atempadamente aqueles que as sustentam? Como se pode aceitar que o reconhecimento surja por inércia, por conveniência circunstancial ou, pior ainda, como resposta tardia a pressões externas?

Mais grave ainda é quando este reconhecimento se dilui em gestos genéricos, em agradecimentos indistintos proferidos em grandes momentos públicos em que todos são lembrados e, paradoxalmente, ninguém é verdadeiramente reconhecido. A gratidão, quando é autêntica, exige um nome, um rosto, uma história e tempo. Tudo o resto não passa de uma forma polida de omissão.

É importante dizê-lo com clareza: não se trata apenas de falhas pontuais ou de desconhecimento. Muitas vezes, trata-se de uma cultura instalada de distanciamento, em que os decisores estão demasiado longe da realidade concreta dos agrupamentos, de uma preocupante tendência para valorizar o visível, o imediato e o mediático, em detrimento de um serviço consistente, discreto e continuado, e, não raras vezes, de pequenos jogos de poder e vaidades pessoais que obscurecem o que deveria ser evidente.

Reconhecer não é um ato administrativo nem um gesto protocolar. É um dever moral. É um exercício de justiça e de memória. É a capacidade — que se exige às estruturas — de antever, de valorizar sem cálculo e de agradecer sem reservas.

Se o Movimento Escutista — e a própria Associação — se orgulha, com razão, dos valores que proclama, deve também ter a coragem de enfrentar as suas próprias incoerências. Não basta formar jovens para o futuro com base em princípios elevados; é indispensável que esses mesmos princípios sejam vividos de forma concreta e consequente na relação com aqueles que dedicaram uma vida inteira ao serviço.

O reconhecimento tardio é, ainda assim, preferível ao silêncio. No entanto, não deixa de ser, inevitavelmente, um reconhecimento incompleto e, em certa medida, uma confissão silenciosa de falha. Porque, no essencial, falhámos quando não fomos capazes de ver, valorizar e agradecer a tempo.



Nenhum comentário:

Postar um comentário