QUANDO OS ADULTOS SE ESQUECEM DO ESPÍRITO ESCUTISTA
Há um paradoxo que, por vezes, se instala silenciosamente nas nossas comunidades escutistas: dedicamo-nos com entusiasmo a educar os jovens para a fraternidade, o espírito de equipa e o serviço, mas, entre adultos, nem sempre conseguimos viver plenamente esses mesmos valores.
Não se trata de uma acusação. É um convite à reflexão.
O escutismo não nasceu para ser um espaço de disputas, de
sensibilidades feridas ou de pequenos jogos de poder entre dirigentes. Nasceu
de uma ideia muito simples de Baden-Powell: ajudar os jovens a crescerem
enquanto pessoas de carácter, através do exemplo, da responsabilidade e da vida
em comunidade. E se há algo que o fundador sempre sublinhou, é que o exemplo
vale mais do que qualquer discurso.
De facto, os jovens observam-nos. Observam como falamos uns
dos outros, como lidamos com as diferenças e como reagimos quando não
concordamos. Observam se somos capazes de dialogar ou se preferimos alimentar
murmúrios. Observam se procuramos construir pontes ou se, pelo contrário,
criamos pequenos "campos" dentro do próprio movimento.
Talvez seja necessário dizê-lo com frontalidade: quando
deixamos que a "partidarite" cresça, quando transformamos diferenças
de opinião em rivalidades pessoais, quando discutimos mais por orgulho do que
por convicção educativa, estamos a afastar-nos do espírito do escutismo.
E isso deveria inquietar-nos.
Porque o escutismo não nos pertence. Não pertence a um
dirigente, a uma equipa, a uma geração ou a uma visão pessoal. É um movimento
com um método, princípios e uma missão educativa que nos antecede e continuará
depois de nós.
Por isso, talvez precisemos de regressar, com alguma
humildade, às nossas fontes: aos manuais das secções, aos regulamentos da
associação e aos escritos de Baden-Powell. Não como textos para cumprir
formalidades, mas como referências comuns que nos ajudem a orientar o nosso
trabalho.
No entanto, ler documentos não basta.
O que realmente faz a diferença é a forma como nos tratamos.
O diálogo sincero, mesmo quando é exigente. A capacidade de escutar antes de
responder. A coragem de fazer uma correção fraterna quando necessário — não
para humilhar, mas para ajudar a crescer. E, sobretudo, a disposição para
reconhecer que nenhum de nós tem o monopólio da verdade.
Ser dirigente escutista não é um título de autoridade. É um
compromisso de serviço.
Talvez por isso a pergunta mais exigente que podemos fazer a
nós próprios seja esta: se um jovem observasse todas as nossas reuniões, todas
as nossas conversas e todas as nossas decisões, teria vontade de viver o mesmo
espírito que dizemos querer ensinar?
Se a resposta não for um “sim” claro, então ainda temos
caminho a fazer.
Baden-Powell acreditava que o escutismo podia tornar o mundo
um pouco melhor, formando pessoas capazes de viver com carácter, generosidade e
espírito de fraternidade. Mas essa transformação não começa nos discursos, nem
nos programas de atividades.
Começa na forma como os dirigentes vivem entre si.
E talvez seja precisamente aí que o verdadeiro desafio
começa.


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