segunda-feira, 9 de março de 2026

QUANDO OS ADULTOS SE ESQUECEM DO ESPÍRITO ESCUTISTA

Há um paradoxo que, por vezes, se instala silenciosamente nas nossas comunidades escutistas: dedicamo-nos com entusiasmo a educar os jovens para a fraternidade, o espírito de equipa e o serviço, mas, entre adultos, nem sempre conseguimos viver plenamente esses mesmos valores.

Não se trata de uma acusação. É um convite à reflexão.

O escutismo não nasceu para ser um espaço de disputas, de sensibilidades feridas ou de pequenos jogos de poder entre dirigentes. Nasceu de uma ideia muito simples de Baden-Powell: ajudar os jovens a crescerem enquanto pessoas de carácter, através do exemplo, da responsabilidade e da vida em comunidade. E se há algo que o fundador sempre sublinhou, é que o exemplo vale mais do que qualquer discurso.

De facto, os jovens observam-nos. Observam como falamos uns dos outros, como lidamos com as diferenças e como reagimos quando não concordamos. Observam se somos capazes de dialogar ou se preferimos alimentar murmúrios. Observam se procuramos construir pontes ou se, pelo contrário, criamos pequenos "campos" dentro do próprio movimento.

Talvez seja necessário dizê-lo com frontalidade: quando deixamos que a "partidarite" cresça, quando transformamos diferenças de opinião em rivalidades pessoais, quando discutimos mais por orgulho do que por convicção educativa, estamos a afastar-nos do espírito do escutismo.

E isso deveria inquietar-nos.

Porque o escutismo não nos pertence. Não pertence a um dirigente, a uma equipa, a uma geração ou a uma visão pessoal. É um movimento com um método, princípios e uma missão educativa que nos antecede e continuará depois de nós.

Por isso, talvez precisemos de regressar, com alguma humildade, às nossas fontes: aos manuais das secções, aos regulamentos da associação e aos escritos de Baden-Powell. Não como textos para cumprir formalidades, mas como referências comuns que nos ajudem a orientar o nosso trabalho.

No entanto, ler documentos não basta.

O que realmente faz a diferença é a forma como nos tratamos. O diálogo sincero, mesmo quando é exigente. A capacidade de escutar antes de responder. A coragem de fazer uma correção fraterna quando necessário — não para humilhar, mas para ajudar a crescer. E, sobretudo, a disposição para reconhecer que nenhum de nós tem o monopólio da verdade.

Ser dirigente escutista não é um título de autoridade. É um compromisso de serviço.

Talvez por isso a pergunta mais exigente que podemos fazer a nós próprios seja esta: se um jovem observasse todas as nossas reuniões, todas as nossas conversas e todas as nossas decisões, teria vontade de viver o mesmo espírito que dizemos querer ensinar?

Se a resposta não for um “sim” claro, então ainda temos caminho a fazer.

Baden-Powell acreditava que o escutismo podia tornar o mundo um pouco melhor, formando pessoas capazes de viver com carácter, generosidade e espírito de fraternidade. Mas essa transformação não começa nos discursos, nem nos programas de atividades.

Começa na forma como os dirigentes vivem entre si.

E talvez seja precisamente aí que o verdadeiro desafio começa.



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