domingo, 25 de janeiro de 2026

QUANDO OS VOLUNTÁRIOS PAGAM PARA SERVIR – E A ASSOCIAÇÃO ESQUECE-SE DE INVESTIR EM QUEM EDUCA

- NOTA: o texto é longo mais merece uma leitura.

Nas associações escutistas fala-se muito de qualidade educativa, de formação contínua, de exigência pedagógica e de responsabilidade. Exige-se, com razão, que os dirigentes sejam cada vez mais preparados, certificados, competentes e conscientes do papel que desempenham junto das crianças e jovens.

Mas há uma contradição profunda que raramente é discutida com frontalidade:
quem paga, afinal, a formação desses dirigentes?

Na maioria dos casos, a resposta é desconfortável: paga o próprio voluntário.

E isto merece reflexão séria, porque a formação de dirigentes não é um benefício pessoal. É, antes de tudo, uma necessidade vital da própria associação.

O dirigente não se forma para enriquecer o seu currículo, nem para obter vantagens profissionais, nem para benefício individual. Forma-se para servir gratuitamente a instituição, durante anos, oferecendo tempo, energia, responsabilidade e compromisso.

E, ainda assim, pedimos-lhe que suporte quase sozinho:

  • Valores de inscrição, que suportam o alojamento, a alimentação e os materiais didáticos,
  • deslocações.

O voluntariado transforma-se, assim, silenciosamente, em voluntariado financiador.

A angariação de fundos que nunca chega à formação

Há aqui um paradoxo revelador.

Em quase todos os níveis do movimento, a angariação de fundos existe e é intensa.
Vende-se, organiza-se, mobiliza-se, envolve-se a comunidade.

Mas esses fundos têm, quase sempre, um destino claro:

  • apoiar atividades,
  • reduzir custos dos acampamentos,
  • financiar materiais para jovens,
  • suportar grandes atividades.

Tudo isso é legítimo. Tudo isso é necessário.

Mas raramente — muito raramente — se vê a mesma preocupação em financiar a formação dos adultos.

Cria-se um sistema curioso:

  • investimos para que os jovens possam participar de forma mais barata nas atividades,
  • mas deixamos que os adultos paguem caro para poderem aprender a educar melhor esses mesmos jovens.

Como se a formação dos dirigentes fosse um assunto privado.
Como se não fosse responsabilidade coletiva.
Como se não fosse um pilar essencial da qualidade educativa.

Quando o dinheiro passa a selecionar os dirigentes

Esta opção não é neutra.

Quando a formação é quase totalmente suportada pelo formando:

  • excluem-se adultos com menos recursos,
  • limita-se a diversidade social do corpo de dirigentes,
  • seleciona-se mais pela capacidade económica do que pela vocação,
  • empobrece-se o futuro do movimento.

E depois estranhamos:

  • a falta de dirigentes experientes,
  • a juventude excessiva das equipas,
  • a rotatividade constante,
  • a fragilidade pedagógica em muitos contextos.

Quando, na verdade, fomos nós que construímos as barreiras.

A incoerência institucional

Exigimos formação obrigatória.
Exigimos certificação.
Exigimos responsabilidade legal e educativa.
Exigimos disponibilidade prolongada.

Mas não criamos políticas sólidas de apoio financeiro à formação.

Esta incoerência é perigosa.

Porque:

não existe qualidade educativa sem investimento institucional.

Uma associação que não investe sistematicamente na formação dos seus educadores está, na prática, a abdicar da qualidade que diz defender.

E mais: está a correr um risco silencioso de degradação futura.

O perigo de pagar… e depois exigir menos

Há ainda um efeito perverso que raramente se assume.

Quando alguém paga caro pela formação, instala-se inevitavelmente a lógica:

  • “paguei, logo tenho direito”,
  • “isto não pode ser demasiado exigente”,
  • “não me podem reprovar”.

E assim, lentamente:

  • encurtam-se percursos,
  • suavizam-se critérios,
  • banalizam-se certificações.

Passa a haver muitos dirigentes certificados…
mas cada vez menos dirigentes verdadeiramente formados.

Uma escolha que define o futuro do movimento

Ninguém defende que a formação deva ser totalmente gratuita.
A comparticipação é legítima.
A corresponsabilização é saudável.

Mas não é aceitável que a formação seja, estruturalmente, um encargo quase exclusivo do voluntário.

É tempo de perguntar, com honestidade institucional:

  • Porque angariamos fundos para quase tudo… menos para formar os nossos adultos?
  • Porque subsidiamos atividades… mas não subsidiamos quem as torna educativas?
  • Porque tratamos a formação como despesa pessoal e não como investimento estratégico?

No fundo, a questão é simples:

Queremos uma associação que poupa dinheiro… ou uma associação que investe em educadores?

Porque quando uma instituição deixa de investir na formação dos seus dirigentes, não está apenas a poupar recursos.

Está, silenciosamente, a comprometer a qualidade do seu presente —
e a hipotecar o futuro do seu próprio projeto educativo.



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