QUANDO OS VOLUNTÁRIOS PAGAM PARA SERVIR – E A ASSOCIAÇÃO ESQUECE-SE DE INVESTIR EM QUEM EDUCA
- NOTA: o texto é longo mais merece uma leitura.
Nas associações escutistas fala-se muito de qualidade educativa, de formação contínua, de exigência pedagógica e de responsabilidade. Exige-se, com razão, que os dirigentes sejam cada vez mais preparados, certificados, competentes e conscientes do papel que desempenham junto das crianças e jovens.
Mas há uma contradição profunda que raramente é discutida
com frontalidade:
quem paga, afinal, a formação desses dirigentes?
Na maioria dos casos, a resposta é desconfortável: paga o
próprio voluntário.
E isto merece reflexão séria, porque a formação de
dirigentes não é um benefício pessoal. É, antes de tudo, uma necessidade
vital da própria associação.
O dirigente não se forma para enriquecer o seu currículo,
nem para obter vantagens profissionais, nem para benefício individual. Forma-se
para servir gratuitamente a instituição, durante anos, oferecendo tempo,
energia, responsabilidade e compromisso.
E, ainda assim, pedimos-lhe que suporte quase sozinho:
- Valores
de inscrição, que suportam o alojamento, a alimentação e os materiais
didáticos,
- deslocações.
O voluntariado transforma-se, assim, silenciosamente, em voluntariado
financiador.
A angariação de fundos que nunca chega à formação
Há aqui um paradoxo revelador.
Em quase todos os níveis do movimento, a angariação de
fundos existe e é intensa.
Vende-se, organiza-se, mobiliza-se, envolve-se a comunidade.
Mas esses fundos têm, quase sempre, um destino claro:
- apoiar
atividades,
- reduzir
custos dos acampamentos,
- financiar
materiais para jovens,
- suportar
grandes atividades.
Tudo isso é legítimo. Tudo isso é necessário.
Mas raramente — muito raramente — se vê a mesma preocupação
em financiar a formação dos adultos.
Cria-se um sistema curioso:
- investimos
para que os jovens possam participar de forma mais barata nas atividades,
- mas
deixamos que os adultos paguem caro para poderem aprender a educar melhor
esses mesmos jovens.
Como se a formação dos dirigentes fosse um assunto privado.
Como se não fosse responsabilidade coletiva.
Como se não fosse um pilar essencial da qualidade educativa.
Quando o dinheiro passa a selecionar os dirigentes
Esta opção não é neutra.
Quando a formação é quase totalmente suportada pelo
formando:
- excluem-se
adultos com menos recursos,
- limita-se
a diversidade social do corpo de dirigentes,
- seleciona-se
mais pela capacidade económica do que pela vocação,
- empobrece-se
o futuro do movimento.
E depois estranhamos:
- a
falta de dirigentes experientes,
- a
juventude excessiva das equipas,
- a
rotatividade constante,
- a
fragilidade pedagógica em muitos contextos.
Quando, na verdade, fomos nós que construímos as barreiras.
A incoerência institucional
Exigimos formação obrigatória.
Exigimos certificação.
Exigimos responsabilidade legal e educativa.
Exigimos disponibilidade prolongada.
Mas não criamos políticas sólidas de apoio financeiro à
formação.
Esta incoerência é perigosa.
Porque:
não existe qualidade educativa sem investimento
institucional.
Uma associação que não investe sistematicamente na formação
dos seus educadores está, na prática, a abdicar da qualidade que diz defender.
E mais: está a correr um risco silencioso de degradação
futura.
O perigo de pagar… e depois exigir menos
Há ainda um efeito perverso que raramente se assume.
Quando alguém paga caro pela formação, instala-se
inevitavelmente a lógica:
- “paguei,
logo tenho direito”,
- “isto
não pode ser demasiado exigente”,
- “não
me podem reprovar”.
E assim, lentamente:
- encurtam-se
percursos,
- suavizam-se
critérios,
- banalizam-se
certificações.
Passa a haver muitos dirigentes certificados…
mas cada vez menos dirigentes verdadeiramente formados.
Uma escolha que define o futuro do movimento
Ninguém defende que a formação deva ser totalmente gratuita.
A comparticipação é legítima.
A corresponsabilização é saudável.
Mas não é aceitável que a formação seja, estruturalmente, um
encargo quase exclusivo do voluntário.
É tempo de perguntar, com honestidade institucional:
- Porque
angariamos fundos para quase tudo… menos para formar os nossos adultos?
- Porque
subsidiamos atividades… mas não subsidiamos quem as torna educativas?
- Porque
tratamos a formação como despesa pessoal e não como investimento
estratégico?
No fundo, a questão é simples:
Queremos uma associação que poupa dinheiro… ou uma
associação que investe em educadores?
Porque quando uma instituição deixa de investir na formação
dos seus dirigentes, não está apenas a poupar recursos.
Está, silenciosamente, a comprometer a qualidade do seu
presente —
e a hipotecar o futuro do seu próprio projeto educativo.


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