FORMAÇÃO ESCUTISTA OU CONTABILIDADE DE CRÉDITOS?
A formação escutista de adultos enfrenta hoje um desafio silencioso, mas profundo. Entre a fidelidade à sua missão educativa e a tentação de copiar modelos da formação profissional, instala-se uma deriva preocupante: a transformação do caminho formativo num percurso administrativo de acumulação de créditos.
A formação profissional vive legitimamente de módulos, horas certificadas e progressões rápidas. O Escutismo, porém, sempre viveu de processos lentos, exigentes e profundamente humanos. Forma educadores, não técnicos. Forma líderes para servir, não para progredir em estruturas. Quando esta distinção se perde, a formação deixa de ser caminho e passa a ser mera contabilidade.
Multiplicam-se módulos sem sequência lógica, frequentados apenas porque “contam”. Aceleram-se percursos para responder a necessidades estruturais. Produzem-se dirigentes rápidos, mas frágeis; certificados em abundância, mas pobres em maturidade educativa. Nunca se frequentaram tantos cursos. Nunca se sentiu tanta insegurança na liderança de proximidade.
Também a postura dos formadores merece reflexão. O formador escutista não pode ser apenas gestor de módulos nem distribuidor de créditos. Deve ser, antes de tudo, educador experiente, próximo do terreno, testemunha viva do Método Escutista. Quando a formação se afasta da vida real das unidades, ganha sofisticação no discurso, mas perde autoridade educativa.
O Escutismo não precisa de mais créditos. Precisa de mais caráter.
Não precisa de mais certificados. Precisa de mais coerência.
Não precisa de dirigentes rápidos. Precisa de educadores sólidos.
Talvez seja tempo de colocar a pergunta essencial: estamos a formar educadores para os jovens… ou apenas a gerir carreiras dentro das nossas estruturas?


Nenhum comentário:
Postar um comentário