sexta-feira, 24 de outubro de 2025

SILÊNCIO DEPOIS DO APITO

A chuva caía sem parar naquela manhã de sábado, lavando a lama do parque escutista, mas não a dor no coração do Chefe Avelino. Chegou ao campo antes do nascer do sol, como sempre o fazia — botas encharcadas, mochila gasta e estômago vazio. Ainda assim, antes do toque do apito, a sua voz já enchia o ar de energia, histórias e sorrisos. Para os escuteiros, ele era um farol. Para a associação, muitas vezes, era invisível.

Montava atividades sob tendas rasgadas, usando cordas remendadas e material que comprava do próprio bolso — um bolso que mal dava para as contas do mês.
Às vezes, quando o agrupamento não tinha verbas ou quando o trabalho o deixava exausto, ele ainda aparecia — de lenço ao pescoço, sorriso no rosto, fingindo que não lhe doíam as costas nem o coração. Acreditava que, se os seus escuteiros crescessem retos, fortes e fiéis, talvez um dia o mundo se lembrasse do chefe sem nome que lhes ensinou a Servir.

Mas ninguém se lembrou.
Quando adoeceu, o agrupamento murmurou, mas ninguém apareceu.
Não houve medalhas, homenagens ou uma carta de despedida — apenas silêncio.
O mesmo silêncio que fica no campo depois do último acampamento.

Os seus escuteiros tornaram-se dirigentes, pais, profissionais, cidadãos exemplares.
Mas o seu nome nunca chegou aos jornais ou revistas, nem às redes sociais.
O mesmo pó de terra que cobria as suas botas agora cobre o seu túmulo.

E, no entanto, o campo lembra-se.
O campo lembra-se da sua voz firme ao cair da noite.
As árvores lembram-se das suas canções.
E, algures, um escuteiro que um dia acendeu o primeiro fogo com ele ainda se lembra do chefe que o ensinou a acreditar — em Deus, na natureza e em si próprio.

Se alguma vez ergueste uma tenda, participaste numa procissão ou fizeste uma promessa ao lado de alguém que acreditou em ti...
Agradece.
Apoia um chefe. Fala por ele.

Porque, por trás de cada escuteiro confiante e cada dirigente inspirado, há um chefe cansado, silenciosamente cedendo ao peso da dedicação e da ausência de reconhecimento.



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