SILÊNCIO DEPOIS DO APITO
A chuva caía sem parar naquela manhã de sábado, lavando a lama do parque escutista, mas não a dor no coração do Chefe Avelino. Chegou ao campo antes do nascer do sol, como sempre o fazia — botas encharcadas, mochila gasta e estômago vazio. Ainda assim, antes do toque do apito, a sua voz já enchia o ar de energia, histórias e sorrisos. Para os escuteiros, ele era um farol. Para a associação, muitas vezes, era invisível.
Montava atividades sob tendas rasgadas, usando cordas
remendadas e material que comprava do próprio bolso — um bolso que mal dava
para as contas do mês.
Às vezes, quando o agrupamento não tinha verbas ou quando o trabalho o deixava
exausto, ele ainda aparecia — de lenço ao pescoço, sorriso no rosto, fingindo
que não lhe doíam as costas nem o coração. Acreditava que, se os seus
escuteiros crescessem retos, fortes e fiéis, talvez um dia o mundo se lembrasse
do chefe sem nome que lhes ensinou a Servir.
Mas ninguém se lembrou.
Quando adoeceu, o agrupamento murmurou, mas ninguém apareceu.
Não houve medalhas, homenagens ou uma carta de despedida — apenas silêncio.
O mesmo silêncio que fica no campo depois do último acampamento.
Os seus escuteiros tornaram-se dirigentes, pais,
profissionais, cidadãos exemplares.
Mas o seu nome nunca chegou aos jornais ou revistas, nem às redes sociais.
O mesmo pó de terra que cobria as suas botas agora cobre o seu túmulo.
E, no entanto, o campo lembra-se.
O campo lembra-se da sua voz firme ao cair da noite.
As árvores lembram-se das suas canções.
E, algures, um escuteiro que um dia acendeu o primeiro fogo com ele ainda se
lembra do chefe que o ensinou a acreditar — em Deus, na natureza e em si
próprio.
Se alguma vez ergueste uma tenda, participaste numa procissão
ou fizeste uma promessa ao lado de alguém que acreditou em ti...
Agradece.
Apoia um chefe. Fala por ele.
Porque, por trás de cada escuteiro confiante e cada
dirigente inspirado, há um chefe cansado, silenciosamente cedendo ao peso da
dedicação e da ausência de reconhecimento.


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