UM MUNDO MELHOR? ESTÃO LOUCOS…
Esses loucos de lenço. Eu conheço-os. São raros. Já os vi.
Não sei muito bem, mas devem ser mesmo loucos… Todos os sábados, faça frio, calor, quer chova, neve ou troveje, lá estão eles: marcham em silêncio, com um pau na mão e uma mochila às costas… E passam aqui, a apenas duas ruas! Não os compreendo. Estão loucos.
Quando chegam a um lugar cheio de árvores e com umas casas
perdidas… gritam! Sim, gritam!
Dizem que são panteras, lobos, pumas. Que são fortes, que são rápidos. Estão
loucos. Não os compreendo.
Às vezes levantam-se de madrugada, com um frio terrível.
Formam-se em filinhas, gritam, cantam. Quem sabe o que dizem? Soa a coisa de
índios… Não sei. Só sei que depois partem em equipas, viajam dezenas de
quilómetros, dormem em tendas, ao relento, desconfortáveis. Estão malucos.
O pior? Cantam, gritam, riem, dançam. Todos. Uns cinquenta,
talvez. Desde miúdos de seis ou sete anos até senhores de setenta. E são todos
iguais. Nem se distingue quem é criança, quem é adulto.
Enquanto outros jovens vão dançar, eles armam as suas tendas
em círculo. E à noite, em volta do fogo, gritam, cantam e riem como loucos. E
divertem-se. E passam bem. Não entendo.
Usam camisas — nem bonitas são — cheias de insígnias que
ninguém sabe o que significam. Usam-nas no verão, a suar em bica. Usam-nas no
inverno, com graus negativos. E parece que não lhes importa. Riem-se na mesma.
Eu já os vi. Estão loucos.
Dizem que fazem demasiado barulho. Dizem que gostam. Dizem
que se encontram, fazem projetos, arrependem-se, dão-se os parabéns, discutem e
perdoam-se.
Juro que os vi. Não batem bem da cabeça.
E usam chapéus. Alguns comuns, outros tipo cowboy, outros
lembram militares ingleses de outro século. Não sei! São estranhos.
Alguns participam pouco, discretos. Mas um dia… quando
ninguém olha, atrevem-se a cantar mais alto, a sorrir mais. E, meses depois,
estão iguais aos outros. Loucos.
Correm, saltam, caem, levantam-se, giram, respiram fundo, suspiram, voltam a
correr.
Para mim, não fazem nada de útil. Mas eles dizem que estão a
construir um mundo melhor.
Um mundo melhor?
Eles estão completamente loucos.

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