SOMOS TODOS BONS OU MAUS… ISSO DEPENDE DE QUEM ESTÁ CONTANDO A NOSSA HISTÓRIA
No Movimento Escutista, sobretudo entre adultos, vivemos constantemente entrelaçados em histórias que se cruzam: histórias pessoais, histórias de grupo, histórias de serviço e de entrega. Cada um de nós tem intenções, valores e limites próprios, mas a forma como os outros nos percebem depende muito do olhar, da experiência e até das expectativas de quem observa.
Quando dizemos que “somos todos bons ou maus, dependendo
de quem conta a história”, tocamos numa verdade fundamental da vida em
comunidade: a subjetividade. Um gesto que para uns pode parecer intransigente,
para outros é visto como firmeza e coerência. Uma decisão que alguns
interpretam como arrogância pode ser entendida, noutro contexto, como coragem
de assumir responsabilidades. Assim, a nossa “imagem” no Movimento nunca é
neutra – ela é construída e reconstruída pela forma como os outros narram
aquilo que fazemos.
No escutismo, isto tem um impacto particular. Trabalhamos
lado a lado em equipas de adultos (chefes, dirigentes, colaboradores), onde a
missão é servir os jovens, mas onde inevitavelmente surgem conflitos de
perspetivas, diferenças de estilo e choques de personalidade. A questão não é
se isso acontece, mas como lidamos com isso.
Alguns pontos para refletir:
- A
importância da intenção e da perceção: Muitas vezes julgamos os outros
apenas pela ação visível, esquecendo-nos da intenção que lhe está por
trás. No entanto, queremos que os outros nos julguem pelas nossas
intenções. O equilíbrio está em aprender a escutar antes de rotular.
- Narrativas
múltiplas: Dentro de um mesmo agrupamento, podem coexistir histórias
muito diferentes sobre a mesma pessoa. Um dirigente pode ser lembrado como
“exigente” por uns e como “inspirador” por outros. A verdade raramente é
única – é composta de múltiplas perspetivas.
- O
impacto no serviço educativo: Quando deixamos que a “etiqueta” de bom
ou mau defina alguém, corremos o risco de bloquear a sua contribuição para
o grupo. No escutismo, precisamos de todos os talentos, mesmo daqueles
que não se encaixam na nossa forma pessoal de agir.
- A
fraternidade escutista como caminho: Baden-Powell insistia na
fraternidade mundial, no esforço de compreender o próximo e de ver sempre
o lado positivo. Entre adultos, esta atitude é ainda mais necessária: dar
o benefício da dúvida, acreditar que o outro age em consciência, procurar
o diálogo e não apenas a crítica.
No fundo, a frase recorda-nos de que a nossa missão não é
sermos “bons” na narrativa de todos, mas sermos autênticos, coerentes com a
Promessa e a Lei do Escuta. Se tivermos isto presente, as histórias que
contam sobre nós serão diversas, mas haverá sempre um fio condutor de verdade:
a vontade de servir.
Talvez o grande desafio seja este: não temermos a
história que contam sobre nós, mas preocuparmo-nos com a história que estamos a
escrever juntos, como adultos que educam pela ação, pelo exemplo e pela
entrega.

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