sexta-feira, 12 de setembro de 2025

SANTOS À PORTA DE CASA NÃO FAZEM MILAGRES

Reza a sabedoria popular: "Santos à porta de casa não fazem milagres."
Sem querer cair na tentação de generalizar, lembrei-me de uma conversa recente com um escuteiro e amigo de longa data. Ele, hoje dirigente, partilhava comigo os desafios que tem sentido no seu Agrupamento, onde, por razões naturais, se rodeou de pessoas conhecidas — amigos, antigos companheiros de secção, ou elementos com quem criou laços fortes ao longo do tempo.
À partida, parecia uma combinação perfeita: conhecia os seus percursos, competências e motivações. Mas com o tempo, foi percebendo que a proximidade nem sempre é sinónimo de eficácia ou equilíbrio, principalmente quando se torna difícil distinguir o que é amizade pessoal e o que é liderança educativa.
Ao recordar esta partilha, pus-me a pensar: quantas vezes já vivi ou observei situações semelhantes? A verdade é que no seio do movimento escutista, onde o ambiente é naturalmente familiar e acolhedor, as fronteiras entre a amizade e a responsabilidade educativa nem sempre estão bem definidas.
Não se trata de apontar dedos ou de atribuir culpas. Mas a realidade é que, em algum momento, alguém acaba por confundir os papéis:
– ou há um desinvestimento no compromisso associativo,
– ou um excesso de informalidade nas decisões,
– ou uma dificuldade em exercer autoridade e tomar decisões impopulares,
– ou mesmo uma expectativa de lealdade acima da exigência pedagógica.
O meu amigo confessava que, hoje, seria mais criterioso na forma como distribui responsabilidades dentro da sua chefia. Não que afaste os amigos, mas procuraria equilibrar afinidades com competência e clareza de papéis. Perguntava-me: Como é que eu posso exercer liderança sem magoar alguém de quem gosto?
Na altura, não soube dar-lhe uma resposta definitiva. Mas acredito que tudo começa na forma como lideramos. E, por vezes, o problema está exatamente aí: ser amigo demais e dirigente de menos.
Claro que é desejável manter um ambiente de fraternidade, boa disposição e entreajuda — é isso que nos distingue. Mas como também se diz: "Trabalho é trabalho, escutismo é escutismo" (se me permitem a adaptação). Há metas educativas a atingir, compromissos a honrar, e jovens que esperam de nós coerência, inspiração e exemplo.
Por isso, talvez o primeiro passo seja avaliar em equipa o desempenho de cada um, com transparência e sentido de construção. É possível que o dirigente em questão nem tenha consciência de que está a desequilibrar afetos e missão. Cabe ao responsável máximo ser claro nos sinais e honesto no seu descontentamento, sem deixar de ser fraterno.
Esta reflexão levou-me a alargar a perspetiva: como é que gerimos relações próximas dentro de uma estrutura que exige tanto compromisso?
E se tivermos de escolher entre manter alguém próximo, mas desalinhado, ou proteger a saúde e o rumo do agrupamento?
Será que conseguimos recrutar e colaborar com amigos sem comprometer o essencial?
E como salvaguardar um projeto educativo que foi construído com o coração, mas que precisa da razão para avançar?
Talvez a resposta passe por uma liderança mais consciente, por uma cultura de avaliação e por espaços onde se possam colocar estas questões sem tabus. No fim, somos todos voluntários, sim — mas somos, acima de tudo, educadores comprometidos com uma missão transformadora.

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