O TEMPO DA TRAVESSIA ESCUTISTA
“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.”
— Fernando Pessoa
O Escutismo, enquanto movimento de educação integral, vive
constantemente do desafio da renovação. Tal como o poeta nos recorda,
também nós, adultos que integramos o escutismo, enfrentamos momentos em que
precisamos de deixar para trás rotinas demasiado familiares, caminhos que já
percorremos vezes sem conta e que já não nos exigem nem crescimento, nem
superação.
No serviço escutista, esta travessia não é apenas pessoal, é
também comunitária. Significa reconhecer que a missão de apoiar crianças e
jovens na sua caminhada não se esgota na experiência adquirida ou no conforto
das práticas repetidas. Pelo contrário, exige de nós disponibilidade para
reaprender, abrir horizontes e reinventar formas de presença e liderança.
O desafio da mudança
É natural que, ao longo dos anos, nos habituemos a certos
modos de fazer. Mas o risco de permanecer sempre nos mesmos lugares é o de
transformar o Escutismo num espaço de estagnação. Quando isso acontece, já não
somos agentes de transformação, mas apenas guardiões de hábitos. O tempo da
travessia convida-nos a olhar com espírito crítico e construtivo para o que
fazemos, a discernir o que já não serve e a ousar arriscar novas respostas,
mais fiéis ao tempo presente e às necessidades reais dos jovens.
A coragem de atravessar
Atravessar implica coragem. Requer disponibilidade para
deixar para trás a segurança e aceitar o incómodo da novidade. Para os adultos
no Escutismo, isto significa:
- repensar
o modo como acompanhamos os jovens nas suas etapas de crescimento;
- rever
a forma como vivemos o serviço dentro e fora do movimento;
- aceitar
formação contínua como oportunidade de transformação pessoal;
- cultivar
a humildade de aprender com os próprios jovens e com outros adultos.
Cada travessia traz em si uma promessa: a de redescobrir o
entusiasmo e a autenticidade da nossa vocação escutista.
Uma travessia em comunidade
No Escutismo não caminhamos sozinhos. A travessia faz-se em bando,
patrulha, equipa, tribo, em Unidade, em agrupamento e na comunidade. A
verdadeira força do movimento está na fraternidade que nos une. Por isso, este
tempo de travessia não é apenas individual — é também coletivo. É a unidade, o
agrupamento, a região e a associação que são chamados a repensar-se, a escutar
os sinais dos tempos e a abrir-se ao futuro com confiança.
Ficar à margem ou ser protagonista
Se não ousarmos atravessar, como lembra Fernando Pessoa,
corremos o risco de ficar à margem de nós mesmos. E no Escutismo, isso
significa ficar à margem da missão que nos define: educar para a vida,
construir cidadãos mais livres, responsáveis e comprometidos com o mundo.
O tempo da travessia é, portanto, o tempo de dizer sim ao
caminho, de reafirmar a coragem e de renovar a alegria do serviço. Porque cada
vez que atravessamos, descobrimos que há sempre mais para dar, mais para
aprender e mais para viver.
Um convite, pois, a cada adulto no escutismo: não tenhas
medo da travessia. Faz dela oportunidade de crescimento, fidelidade à tua
missão e abertura à aventura da vida.


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