quinta-feira, 18 de setembro de 2025

O TEMPO DA TRAVESSIA ESCUTISTA

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.”
— Fernando Pessoa

O Escutismo, enquanto movimento de educação integral, vive constantemente do desafio da renovação. Tal como o poeta nos recorda, também nós, adultos que integramos o escutismo, enfrentamos momentos em que precisamos de deixar para trás rotinas demasiado familiares, caminhos que já percorremos vezes sem conta e que já não nos exigem nem crescimento, nem superação.

No serviço escutista, esta travessia não é apenas pessoal, é também comunitária. Significa reconhecer que a missão de apoiar crianças e jovens na sua caminhada não se esgota na experiência adquirida ou no conforto das práticas repetidas. Pelo contrário, exige de nós disponibilidade para reaprender, abrir horizontes e reinventar formas de presença e liderança.

O desafio da mudança

É natural que, ao longo dos anos, nos habituemos a certos modos de fazer. Mas o risco de permanecer sempre nos mesmos lugares é o de transformar o Escutismo num espaço de estagnação. Quando isso acontece, já não somos agentes de transformação, mas apenas guardiões de hábitos. O tempo da travessia convida-nos a olhar com espírito crítico e construtivo para o que fazemos, a discernir o que já não serve e a ousar arriscar novas respostas, mais fiéis ao tempo presente e às necessidades reais dos jovens.

A coragem de atravessar

Atravessar implica coragem. Requer disponibilidade para deixar para trás a segurança e aceitar o incómodo da novidade. Para os adultos no Escutismo, isto significa:

  • repensar o modo como acompanhamos os jovens nas suas etapas de crescimento;
  • rever a forma como vivemos o serviço dentro e fora do movimento;
  • aceitar formação contínua como oportunidade de transformação pessoal;
  • cultivar a humildade de aprender com os próprios jovens e com outros adultos.

Cada travessia traz em si uma promessa: a de redescobrir o entusiasmo e a autenticidade da nossa vocação escutista.

Uma travessia em comunidade

No Escutismo não caminhamos sozinhos. A travessia faz-se em bando, patrulha, equipa, tribo, em Unidade, em agrupamento e na comunidade. A verdadeira força do movimento está na fraternidade que nos une. Por isso, este tempo de travessia não é apenas individual — é também coletivo. É a unidade, o agrupamento, a região e a associação que são chamados a repensar-se, a escutar os sinais dos tempos e a abrir-se ao futuro com confiança.

Ficar à margem ou ser protagonista

Se não ousarmos atravessar, como lembra Fernando Pessoa, corremos o risco de ficar à margem de nós mesmos. E no Escutismo, isso significa ficar à margem da missão que nos define: educar para a vida, construir cidadãos mais livres, responsáveis e comprometidos com o mundo.

O tempo da travessia é, portanto, o tempo de dizer sim ao caminho, de reafirmar a coragem e de renovar a alegria do serviço. Porque cada vez que atravessamos, descobrimos que há sempre mais para dar, mais para aprender e mais para viver.

Um convite, pois, a cada adulto no escutismo: não tenhas medo da travessia. Faz dela oportunidade de crescimento, fidelidade à tua missão e abertura à aventura da vida.

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