segunda-feira, 8 de setembro de 2025

DEIXAR PÉGADAS NO TRILHO: A MARCA DE CADA DIRIGENTE ESCUTISTA

A coisa mais acertada que ouvi no movimento escutista, ao longo de mais de quarenta e cinco anos de serviço como dirigente, foi a ideia de que a maior riqueza de um dirigente escutista é a sua identidade. É aquilo que o distingue do dirigente do agrupamento vizinho, da região ao lado, ou até do colega que partilha consigo a mesma Unidade. E é essa diferença que, tantas vezes, sustenta a verdadeira vitalidade do escutismo.

Por vezes, o Método Escutista parece querer moldar-nos a todos da mesma forma, conduzindo-nos a agir de acordo com documentos pedagógicos que, sendo úteis e necessários, correm o risco de nos empurrar para a uniformidade. Mas a essência do escutismo não está na repetição automática de fórmulas, nem no cumprimento rígido de planos. Está, isso sim, na capacidade de cada dirigente assumir plenamente quem é, o que acredita e o modo como vive o escutismo.

Um dirigente escutista é, antes de tudo, uma pessoa. Pode parecer óbvio, mas muitas vezes esquecemo-nos disso. É alguém com uma personalidade própria, com gostos, paixões, opiniões, convicções e valores que marcam não apenas a sua vida pessoal, mas também a sua vida escutista. É impossível separar a pessoa do dirigente: o que cada um é, transborda para a forma como lidera, orienta, educa e inspira os jovens que lhe são confiados.

E reforço as palavras sua e seus. Porque cada dirigente sente sempre um sentido de pertença, um laço invisível, mas real, para com os jovens que acompanha ano após ano. Há uma responsabilidade profunda no acompanhamento do seu crescimento, das suas aprendizagens, dos seus medos e conquistas. Alguns chegam em setembro ou outubro e partem em julho, mas há outros que nunca partem verdadeiramente: ficam, porque o escutismo foi casa, família, caminho. E porque houve um dirigente que deixou marca.

E não, não são as etapas de progresso, as especialidades, as insígnias de competência ou as noites de campo que ficam para sempre gravadas na memória. São, acima de tudo, a forma de ser do dirigente. A sua maneira de estar, de ouvir, de desafiar, de acreditar. É essa identidade — e não a perfeição técnica — que transforma.

Preocupa-me, confesso, a crescente tendência para a uniformização. Esta ideia de que um bom dirigente é aquele que cumpre à risca um guião, que se enquadra num modelo quadrado, que é facilmente mensurável numa ficha de avaliação de formação. Pergunto-me o que perde o movimento quando reduzimos a liderança escutista a padrões previsíveis. Se já assistimos à diminuição da vida de campo, à perda da aventura, à diluição da descoberta e ao enfraquecimento da dinâmica das patrulhas — pilares da pedagogia escutista —, temo que também os dirigentes estejam a perder espaço para a sua própria criatividade e autenticidade.

É por isso que, neste início de ano escutista, quero deixar uma palavra de gratidão a cada dirigente. Obrigado por ser presença firme e disponível na vida de tantas crianças e jovens. Obrigado por acreditar que, apesar das dificuldades, vale a pena dar tempo, energia e coração ao movimento. Mas, acima de tudo, obrigado por ser quem é — porque é exatamente isso, a sua maneira única de viver o escutismo, que faz de si um verdadeiro dirigente.

E deixo-lhe um pedido simples, mas exigente:

Parta á descoberta e explora novos caminhos.

Caminhe fora dos atalhos fáceis, não fiques preso á sede, vive o campo.

Escuta o teu coração de escuteiro, confia na tua promessa e lei, olha para as pegadas de quem caminhou antes de ti.

Recorda os chefes e exemplos que marcaram o teu caminho, olha para as pegadas de quem caminhou antes de ti.

Não se deixe limitar ou comparar com outros dirigentes, seja no seu agrupamento, na sua região ou nas outras estruturas regionais, nacionais.

Arrisque ser, todos os dias, a melhor versão de si mesmo.

Que o próximo ano escutista de 2025/26 seja vivido com coragem, criatividade e alegria. Que seja um ano de aventuras e descobertas, de encontros e desafios, mas sobretudo um ano em que cada jovem ou dirigente se permita ser inteiro e verdadeiro. Porque é dessa autenticidade que nasce o escutismo transformador, aquele que marca para sempre a vida dos jovens.

Nenhum comentário:

Postar um comentário