O FOGO QUE NÃO QUEIMA: UMA CONVERSA ENTRE LENÇOS E SENTIDO
O acampamento cheirava a terra molhada e a fumo antigo. Debaixo da lona gasta, dois homens aqueciam-se junto a um braseiro quase apagado: Paulo, de olhar sereno e atento, e Victor, um dirigente escutista de meia-idade, com mãos calejadas por anos de nós, fogueiras e serviço. No rosto de Victor, o cansaço era mais fundo do que a noite.
— Paulo — começou Victor, com uma voz rouca como madeira seca —, prometemos servir. À Pátria, ao Próximo, a Deus. Ajudar em todas as ocasiões. Mas, às vezes, parece que somos nós, os adultos, quem mais precisa de ajuda. — Mexeu nas brasas com um pau. — As verdadeiras vitórias? Essas são nítidas: ver um jovem tímido liderar pela primeira vez, aquele brilho nos olhos quando aprendem um nó difícil, a união espontânea num acampamento em dia de chuva... Isso enche-nos a alma. É o que nos faz sair da cama às cinco da manhã num sábado gelado.
Victor acenou com a cabeça. — O sentido, Paulo, muitas vezes está exatamente nisso: ultrapassar-nos em nome do outro. É aí que mora o verdadeiro antídoto contra o vazio.
— Mas é esse vazio que, por vezes, corrói — retomou Paulo. — A Promessa Escutista... quantos adultos a recitam, mas depois deixam-se consumir por disputas pequenas, vaidades, intrigas. Já vi dirigentes com coração enorme serem postos de lado por gente que só quer cargos e distinções. As associações, que deviam ser âncoras, viram “locais de luta”.
Fez uma pausa, olhando para o fogo a apagar-se.
— As desilusões doem. Ver um bom projeto ruir por egoísmo. Esbarrar na burocracia, na má-fé. E pensar: “Vale a pena? Estou a fazer a diferença, ou só a alimentar um sistema adoentado?”
Victor inclinou-se, atento.
— Isso é o que chamo de “vazio existencial mascarado de atividade”. Quando o ego suplanta o serviço, instala-se a frustração. Mas há caminhos. A “experiência de vida” pode ser como uma bússola.
— E como, Victor?
— Primeiro, volta ao teu “Porquê”. Lembra-te do que te fez tornar dirigente. Revê aquele primeiro momento em que ajudaste um jovem a crescer. Esse é o teu sentido inalienável. A felicidade, lembra-te, nasce quando nos esquecemos de nós em prol de algo maior — no teu caso, os jovens.
— Segundo, transforma a dor. A “experiência de vida” ensina que mesmo o sofrimento pode ser fonte de sentido, se escolhermos a atitude certa. Usa a mágoa como força para proteger os jovens das mesmas dores.
— Terceiro, evita tentar alcançar reconhecimento. Quando ele se torna o objetivo, escapa-nos. Foca-te no serviço real, no momento com os jovens. O resto virá, ou não virá. E tudo bem.
Paulo suspirou.
— Mas também precisamos de apoio. Onde estão os espaços para os chefes serem ouvidos? Sem julgamentos, sem medo, sem relatórios e cobranças. Só escuta e partilha verdadeira. Isso não existe! As reuniões servem só para números e competições. E essas competições... mais nos afastam do que nos unem.
— Concordo — disse Victor. — Essa obsessão por metas e prémios esvazia o sentido. Um espaço seguro para os chefes seria essencial. Um lugar de diálogo sincero, de aceitação. Onde o foco seja a vontade de servir, e não a pressão de exibir. Onde o único rival seja a própria acomodação, e a meta, o melhor serviço possível aos jovens.
O silêncio voltou. As brasas quase mortas lançavam ainda um brilho teimoso. Victor olhou para o seu lenço escutista, gasto pelos anos.
— Então, a resposta é voltar ao essencial? Aos jovens, ao serviço, e encontrar sentido mesmo na luta?
— Sim, Paulo. O sentido não está imune à dor ou ao erro dos outros. Está na forma como escolhemos enfrentá-los. Continua a acender fogueiras nos corações dos jovens. Esse é o teu legado. E quem sabe? Talvez possas ser tu, com outros de coração firme, a criar esse Espaço Seguro. Uma fogueira de confiança, feita de palavras honestas. A mudança começa em quem ainda acredita no fogo original da Promessa. Mesmo quando tudo parece apagá-lo.
Paulo puxou o lenço mais junto ao pescoço. Não por frio, mas como quem se agarra a algo essencial. No meio do braseiro, uma brasa ainda vermelha resistia. Como o sentido no coração do verdadeiro dirigente. A conversa não trouxe soluções fáceis. Mas reacendeu a vontade de continuar. Afinal, como disse Paulo, quem tem um “porquê”, aguenta quase qualquer “como”. Mesmo o “como” exigente da vida adulta no Escutismo.
Inspirado em publicação de “O Escotismo que Queremos”

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